quinta-feira, 25 de abril de 2013

Conheça o jeito de falar que só os santistas usam

— Tu segue o canal 3 e vira na linha da máquina.

— Trouxe pão de cará e algumas médias para comer.

— Um monte de paulistas desceu no feriado.

Essas frases, muito provavelmente, só são pronunciadas por pessoas da região de Santos, litoral de São Paulo. É o uso de regionalismos linguísticos, termos usados, de certa maneira, que só os moradores locais entendem.

O pão de cará, por exemplo, não é feito de cará há muito tempo, pois o ingrediente ficou caro e, consequentemente, saiu da receita, mas o nome permaneceu. Se a intenção é comer esse pãozinho macio em outros locais, então o jeito é falar pão de leite.

O pão francês tem um nome para cada região: filão em Ribeirão Preto (SP); pãozinho na Grande São Paulo (SP); carioquinha, no Ceará; cacetinho, no Rio Grande do Sul; pão de trigo, em Santa Catarina; pão Jacó, em Sergipe; pão massa grossa, no Maranhão; e pão careca, no Pará. A Baixada Santista não ficou atrás e também batizou o pão mais consumido do Brasil: média. “Quero três médias”. Se esse pedido for feito em São Paulo, o balconista colocará três copos de café com leite na sua frente, pingado, no linguajar dos caiçaras santistas.

Quem nasce no estado de São Paulo é paulista, mas o morador da Baixada Santista chama de paulista todo turista que desce para o litoral nos feriados. Parece até que Santos não pertence a esse estado.

E para guiar os “paulistas”, o morador da região tem as referências certas para localizá-los: avenida da praia, linha da máquina e canais. “Vai pela praia contando os canais. Quando chegar ao canal 5, entra nele e vai até a linha da máquina”.

Será que o turista entendeu? Vamos explicar: avenida da praia são as quatro avenidas da cidade que ladeiam a orla da praia. Já a “linha da máquina” é, na verdade, a sequência de avenidas paralelas à praia, que percorrem a extensão de um trilho de trem já desativado.

A avenida da praia e a linha da máquina são as referências horizontais. As verticais ficam por conta dos canais. Santos possui 12 canais de escoamento a céu aberto que cruzam a cidade, mas os mais conhecidos são os que ficam em sete avenidas que terminam na praia, únicos nomeados com números de 1 a 7.

"Tu tá ligado?" - O regionalismo mais conhecido é o uso do pronome Tu. O santista usa esse pronome, a 2ª pessoa do singular, com verbos conjugados na 3ª pessoa, e sem culpa, no dia-a-dia.

O doutor em Língua Portuguesa e Filologia - estudo científico do desenvolvimento de uma língua ou de famílias de línguas, baseado em documentos escritos nessas línguas – Artarxerxes Modesto, diz que o “tu” representa uma simplificação na língua comum, na evolução delas, como aconteceu do latim para o português. Em sua dissertação de mestrado, escreveu justamente sobre o uso desse pronome na região.

Esse jeito errado de falar se origina no pronome de tratamento "vossa mercê", praticamente em desuso. Todo pronome de tratamento deve conjugar o verbo na 3ª pessoa do singular: “vossa senhoria quer...”, “vossa Majestade deseja...”, “vossa mercê vai...”.

O “vossa mercê”, com o tempo, foi variando e sendo simplificado: "vossa mercê", “vossemecê", “voismecê”, “vassuncê”, "vosmecê", "vancê" e, finalmente, “você”, que foi entrando no lugar do pronome “tu”, praticamente no Brasil todo.

Em Santos, o “tu” não foi absolutamente trocado pelo “você”, e sim a forma de conjugar o verbo. Por ter sido derivado de um pronome de tratamento, “você” deve ser usado com o verbo conjugado na 3ª pessoa do singular – “Você vai?”.

Mas por se referenciar à pessoa com quem está se falando, formalmente tratado com o pronome “tu”, 2ª pessoa do singular – Tu vais? – ele é usado, na região, erroneamente – Tu vai?, como se fosse o “você”.

Na pesquisa aprofundada que realizou, Modesto concluiu que não há idade, classe ou gênero que diferencie o uso do pronome. “Os mais velhos têm uma espécie de auto preconceito, pois costumam ser relutantes em admitir o uso com forma na terceira pessoa. Mas a usam!”

Ele simpatiza com o uso dessa forma, diz que não é um erro, apenas uma variação natural da língua. Modesto profetiza que um dia pode virar regra na nossa gramática normativa.
“Aqui somos uma mistura de gente, gente do sul, do norte, nordeste, gente de outros países, e isso atrai mistura, atrai mudança, atrai jeitos diferentes de falar, e coisas só nossas também.”

O professor reforça essa ideia com a lembrança de que Santos é uma cidade portuária. “As idas e vindas, inicialmente de portugueses para cá, acabou influenciando na manutenção da forma "tu" na região, enquanto em outras partes já havia sido consolidada a forma "você”.

Este repórter se lembra de uma camiseta muito vendida em Santos, em certa época, com a seguinte frase: “Eu sou Santista, e tu?”

Por Wagner Tavares/UniSanta

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