segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Melhores Anos: CINEMAS em SANTOS

Em Santos, nos anos 50, havia cinemas lançadores, como o Roxy (o único que, de uma maneira ou outra, sobreviveu), o Iporanga (surgido nos anos 50, estreando com “O Retrato de Jennie”), o Caiçara (na Av. Conselheiro Nébias, começando com “O Manto Sagrado”), o Atlântico (na Praça Independência, demolido) e o Gonzaga (onde hoje há McDonalds). Mais tarde, viria se juntar a nossa Cinelândia, o Praia Palace (inaugurado com “A Ponte do Rio Kwai”) e o Teatro Independência (que também virou cinema com “Adeus as Armas”). Já nos bairros da cidade, havia um ou até mais cinemas, muitas vezes próximos um do outro. E todos eles lotavam. E os filmes iam seguindo determinada ordem, até percorrer a cidade inteira (a preços mais acessíveis). E, também, com mudanças na programação durante a semana. Ou seja, a população ia ao cinema e Santos era um ótimo lugar para ver filmes. Até porque tinha as vantagens de um cinema de interior.


O grande terror eram os filmes proibidos para menores de 18 anos, que eram determinados pela censura por critérios misteriosos, e hoje em dia, meio ridículos. Mas, enfim, já se sabia que os filmes europeus em geral (principalmente os franceses) tinham fama de mais fortes, portanto eram proibidos (essa era uma época em que até mesmo os filmes de Bergman eram taxados como eróticos, pela naturalidade das cenas de nudez, por exemplo, em “Mônica e o Verão”). Para um garoto, o grande desafio era enganar o porteiro, seja com carteira de escola falsificada, seja pagando inteira. É claro que eles não acreditavam, mas tudo fazia parte de uma hipocrisia que perdura até hoje. De qualquer forma, o terror era um porteiro baixinho, que ficava no cine Atlântico, que não caia na conversa e você tinha que devolver o ingresso (até hoje tenho pesadelos com isso e corro atrás de filmes que não consegui assistir porque fui barrado). Felizmente, eu era alto para a minha idade e desde “Bom Dia Tristeza”, baseado no escandaloso livro de Françoise Sagan, consegui ver praticamente todos os filmes proibidos até os 18 anos (dois momentos que não esqueço, foi a estréia de “La Dolce Vita” no mais novo cinema da nossa Cinelândia, o Indaiá, e um filme europeu chamado “O Terceiro Sexo”, sobre homossexualismo, em que até o jovem Pelé estava presente).
O que no fundo estou querendo dizer é que, se você gostava de cinema, Santos era uma boa cidade para se crescer. Ainda hoje com tantas perdas de salas, apesar de tudo, somos privilegiados, já que nenhuma cidade do tamanho de Santos tem número igual de alternativas. Isso sem falar no Clube de Cinema de Santos (fundado em 16 de outubro de 1948), que foi um dos primeiros cineclubes do país e que fez um belo trabalho durante muitas décadas. Foi uma sorte existir o Maurice Legeard e o seu Clube de Cinema que, durante os anos 60, cobria as falhas dos lançamentos na cidade. Acontecia, também, em Santos, a famosa “sessão da meia-noite” do Roxy, onde assistíamos de tudo, de Fellini a Bergman, do cinema tcheco ao russo. Era um momento maior da criatividade do cinema e, felizmente, não ficamos de fora.


FONTE: Lembranças da Santos de minha época  (Rubens Ewald FiIho)

0 comentários:

Postar um comentário

Deixe seu Melhor comentário aqui...